MORO VAI CAIR! O tiro pelas costas em Sérgio Moro é só uma questão de tempo imprimir publicado em: 28 / 08 / 2019

“Ele próprio atira nos seus soldados. E pelas costas”, essa declaração dada pelo ex-secretário geral da Presidência, Gustavo Bebianno, em relação à Bolsonaro não repercutiu intensamente na mídia brasileira. O desabafo foi tomado como “choro” de quem perdeu um cargo importante no governo, mas ela é mais séria do que se pensa e pode ser determinante para derrocada final do Presidente. Cambaleando graças à crise ambiental, o capitão está prestes a incinerar grande parte do seu capital político ao fritar Sérgio Moro. Caso isso ocorra é quase certo que haja reflexos na Economia, liderada por Paulo Guedes, o último pilar de sustentação disso aí.

Bolsonaro tem um gênio difícil, é fato. Os vários partidos por onde militou; duas ex-mulheres; uma coletânea de embates e processos com seus pares deputados; problemas familiares fabricados em série, entre outros imbróglios, atestam isso. O fato novo, que está se evidenciando graças à exposição que a Presidência dá, é que Jair Bolsonaro descarta com muita facilidade seus “aliados”. Isso tem um custo.

O gênio indomável do capitão explica, mas não justifica todos os seus atos. Na mesma entrevista onde Bebianno expõe o que considera covardia de Bolsonaro, o ex-secretário geral e ex-coordenador da campanha, reclama também da forma desleal como o presidente trata “amigos” de mais de 40 anos, como o Gen. Santos Cruz, também demitido. Pior, a forma como isso ocorre é “sempre de maneira desrespeitosa, jocosa, provocativa, tentando denegrir a imagem do outro”, reforça Gustavo.

A situação mais emblemática desse estilo Bolsonaro de proceder está em curso. A “vítima” da vez é o ministro da Justiça Sérgio Moro. Segundo o vice-presidente, General Mourão, os contatos para levar o ex-juiz da Lava Jato para o ministério começaram ainda durante a campanha. Bolsonaro utilizou a marca “Moro” de combatente sério contra a corrupção para dar o ar de moralidade que seu início de governo precisava. Dessa forma conquistou alguma simpatia fora da bolha de bolsominions, notadamente entre aqueles que têm na violência sua maior preocupação. Moro deu a esses a impressão de “agora vai”. Não foi.

O medo de Moro se tornar um forte candidato a presidente nas próximas eleições estremeceu a relação chefe/subordinado. São vários os sintomas. De humilhantes pitos em público, desautorizações, quebra da autonomia a ações de esvaziamento dos protestos favoráveis a Moro, tudo ocorreu. Já se vislumbra uma fissura na bolha da direita, que divide os eleitores do “mito” e os fãs do ex-juiz. Rifar o expoente máximo da República de Curitiba agora, demitindo o ministro, vai abalar a base de apoio popular que ainda resta ao Governo. É importante lembrar que em junho a pesquisa Ibope já mostrava uma queda acentuada na aprovação do novo governo. Apenas 32% o consideravam ótimo/bom. A crise da Amazônia, nessas duas últimas semanas, ainda não entrou nessa conta. O que restar “disso tudo aí” se somará ao desgaste pela demissão do “herói de Curitiba”.

O tiro pelas costas em Moro é só uma questão de tempo. A campanha presidencial em 2022 é o motivo real, mas não pode parecer isso. A desculpa, fragilíssima por sinal, foi exposta nas redes sociais pelo guru presidencial, Olavo de Carvalho, que no Twitter passou a associar Moro e Dallagnol ao petismo. É uma ideia tão esdrúxula quanto à do terraplanismo, mas pós-verdades sem nexo é o retrato do pensamento ilógico do astrólogo. O importante é que alguns acreditam, ou usam, mesmo sem acreditar, para justificar os seus atos.

O ponto final na aventura de Moro no atual governo parece coincidir com o início da derrocada de Paulo Guedes. A agenda de privatizações do ministro da Economia prevê a venda dos Correios, um reduto de eleitores de Bolsonaro. Os servidores já vem se mobilizando desde o anúncio de que os Correios estava na lista das empresas públicas a serem privatizadas com urgência.

A capilaridade dessa empresa e o corporativismo dos seus funcionários é fato conhecido há anos. Uma greve dos Correios provoca problemas e prejuízos, não tanto quanto uma greve de caminhoneiros, mas causa muitas dores de cabeça. Segundo a Associação Brasileira de Comércio Eletrônico – ABComm, em 2019 espera uma movimentação de quase 80 bilhões nesse setor. Num país em crise, uma greve dos Correios que ponha em risco essa cifra promete choro e ranger de dentes.

O caso da privatização dos Correios vai dar ao presidente a possibilidade de trair o seu reduto de eleitores ou trair o seu ministro da Economia. Alguém vai perder e dificilmente Paulo Guedes levará o seu tiro nas costas por conta disso. O que vai aparecer na alça de mira de Bolsonaro vai depender muito do resultado do PIB no terceiro trimestre; da reação à queda de Moro; dos números do desemprego; do desfecho da crise da Amazônia; do humor das redes sociais, enfim de muitas variáveis. E como está provado, coerência não é o forte do capitão presidente que adora atirar. É fogo, senhores.

Por: Américo Abreu, professor | pensarpiaui

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